Biofármaco genérico?

Biofármaco genérico?

Por: Pedro Zolet

Entenda como a Semaglutida deixou de ser exclusividade da biotecnologia. Poucos medicamentos das últimas duas décadas causaram um impacto social tão visível quanto a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, do…

Entenda como a Semaglutida deixou de ser exclusividade da biotecnologia.

Poucos medicamentos das últimas duas décadas causaram um impacto social tão visível quanto a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, do Wegovy e do Rybelsus. Mas por trás do fenômeno de mercado existe uma história de química de proteínas relativamente pouco contada: a molécula nasceu de processos biotecnológicos complexos, quase artesanais em escala industrial, e só recentemente passou a poder ser fabricada por síntese química convencional, o que abriu caminho para os primeiros genéricos.

Destaque: escreva aqui uma informação importante que merece se destacar no meio do texto.

Uma molécula desenhada a partir de um hormônio humano.

A semaglutida não é uma criação do zero. Ela é uma versão modificada do GLP-1 (glucagon-like peptide-1), um hormônio que o próprio intestino humano libera após as refeições para estimular a liberação de insulina e sinalizar saciedade ao cérebro. O problema é que o GLP-1 natural é degradado pelo organismo em poucos minutos, o que o torna inviável como medicamento.

Cientistas da Novo Nordisk publicaram, em 2015, no Journal of Medicinal Chemistry, o artigo que descreve como chegaram à semaglutida: partindo do análogo diário liraglutide, o time trocou dois aminoácidos da sequência do GLP-1 humano e alterou a cadeia de ácido graxo ligada à molécula, tornando-a resistente à degradação enzimática e capaz de se prender à albumina do sangue — o que estende sua meia-vida para dezenas de horas, compatível com uma aplicação semanal em vez de diária, como no caso da liraglutida. É importante não confundir essa origem com a de outro remédio da mesma classe: a exenatida foi isolada da saliva do monstro-de-gila, um lagarto venenoso; já a semaglutida (como a liraglutida) foi desenhada em laboratório a partir da sequência do hormônio humano.

Por que o Ozempic “original” é considerado um biológico

Aqui está o ponto central para entender por que um genérico demorou tanto para existir. A semaglutida da Novo Nordisk não é sintetizada quimicamente do início ao fim: o processo começa dentro de células vivas.

Em linhas gerais, a fabricação envolve quatro grandes etapas técnicas, descritas em modelagens de processo industrial publicadas por especialistas em bioprocessos: a levedura Saccharomyces cerevisiae é geneticamente modificada para produzir e secretar, por fermentação, o peptídeo precursor da molécula; esse precursor é então purificado; em seguida, uma cadeia de ácido graxo (o “braço” que confere estabilidade e ligação à albumina) é sintetizada separadamente por síntese peptídica em fase sólida; e, por fim, as duas partes são unidas por uma reação de acoplamento químico, com purificação final por cromatografia e liofilização. Ou seja: parte biotecnológica (fermentação microbiana) e parte química (síntese e conjugação). É esse componente biológico inicial, a fermentação em organismo vivo geneticamente modificado, que faz as agências regulatórias classificarem o produto original como um medicamento biológico, e não como um fármaco de síntese química convencional.

Vale notar que existe hoje até uma terceira via intermediária, chamada de “semaglutida híbrida” por fabricantes que buscam registro nos Estados Unidos: um precursor produzido por fermentação (em levedura ou em bactérias como E. coli) é depois modificado quimicamente, com a conjugação do ácido esteárico e outras etapas de síntese. Isso mostra que a fronteira entre “feito por bactérias/leveduras” e “feito por síntese química” nunca foi totalmente rígida, é mais uma questão de qual etapa domina o processo.

Título da lista

  1. Primeira dica ou passo
  2. Segunda dica ou passo
  3. Terceira dica ou passo

Feche o texto com uma conclusão curta, retomando o ponto principal da matéria.